domingo, 4 de outubro de 2015

Alimentação base

Atualmente, no meio pet, lidamos com opiniões divergentes sobre uma infinidade de assuntos relacionados às formas de criação, ética e responsabilidade. Quando se trata da vida dos animais, sobretudo quando discutida a público, é preciso ter cautela.
Podemos, por exemplo, sugerir impensadamente tarefas complexas para uma criança ou adolescente. Obviamente não é obrigação alheia cuidar e zelar pelos filhos e animais de terceiros, mas não podemos ignorar o fato de que há menores de idade acessando informações e que por isso elas devem ser sugeridas com delicadeza, simplicidade e responsabilidade. Chamamos de alimentação base aquela que será a principal fonte de energia e nutrientes para o animal. Hoje, sabemos que existem três tipos de alimentação base mais comuns entre os tutores: mix de sementes, granola diet e ração extrusada; sendo a terceira a única elaborada especificamente para esta espécie.

Mix de Sementes vendido em petshops.


O mix de sementes é, sem dúvida, o mais agressivo para o organismo dos ratos, pois, como o nome sugere, é constituído apenas de grãos e sementes. Além de não suprir todas as necessidades nutricionais desses animais, ainda são as maiores causas de alergias, obesidade e desperdício de alimento. Esta opção permite que os animais escolham dos alimentos mais saborosos, que dentre as opções acabam sendo também os mais gordurosos e prejudiciais se consumidos em excesso; como o amendoim e a semente de girassol, e o milho, todos podendo vir carregados de micotoxinas fabricadas por fungos.








Exemplo de tabela nutricional de Ganola (diet à esquerda e normal à direita) vendida no mercado.




A granola (diet), por sua vez, não é elaborada para os ratos. Isso quer dizer que seus níveis nutricionais não foram pensados para eles. Algumas granolas tem, por exemplo, poucas calorias por porção, pouca fibra e muito sódio – ou seja, pouca fibra significa que o animal precisará de uma porção maior do que o necessário para se sentir satisfeito, e com isso ele irá ingerir mais alimento, ingerindo mais sódio do que o necessário. É preciso pesquisar e escolher a granola de acordo com as necessidades nutricionais. Porque, afinal, ela não foi elaborada para suprir as necessidades dos ratos e por isso não é recomendado usar qualquer granola (diet ou não) que se encontra no mercado, e muito menos utilizá-la sozinha.

O maior problema da granola diet é que muitos tutores, apesar de a deixarem disponível o dia todo, a utilizam sozinha, como complemento da alimentação, e fornecem o que chamam de “alimentação natural” como base, oferecendo uma ou duas vezes por dia uma porção de alimentos naturais crus ou cozidos aos seus animais.

A grande questão em relação a alimentação natural é a responsabilidade e o conhecimento envolvidos. Obviamente, uma alimentação natural adequada seria de grande valia para qualquer animal nesse planeta (inclusive os humanos, porque afinal nós consumimos uma quantidade absurda de alimentos super processados), mas também é necessário saber reconhecer que é preciso estudo qualificado, formação e mais do que teorias lidas, é preciso a prática testada – ou seja, exames sanguíneos completos periodicamente. Isso quer dizer que não basta um animal lindo por fora, ele precisa estar comprovadamente equilibrado por dentro.

Para se oferecer uma alimentação natural aos ratos é notoriamente necessário um conhecimento aprofundado o qual se leva anos para adquirir. Basta refletir um pouco, pense em um veterinário comum, de cães e gatos, ele precisa de pós-graduação, especialização e um bom curso no exterior e tudo o mais para que um seja capaz de se qualificar para formular uma dieta natural para esses animais. Isto porque é realmente preciso um conhecimento extenso o qual se leva anos para adquirir. Elaborar uma dieta de qualidade e equilibrada é algo realmente complexo. Por exemplo, a quantidade de alimento ingerida por um animal é determinada a partir de suas necessidades energéticas, então é preciso estabelecer a densidade calórica da dieta e determinar a quantidade de cada nutriente por um dado valor de energia (kcal) de cada alimento que você vai oferecer naquele dia. Ainda parece fácil?


Tabela nutricional para ratos. Fonte: Krinke, 2006.

Veja bem, em uma dieta os nutrientes não podem estar apenas presentes, eles precisam estar presentes em quantidades adequadas, como também precisam estar equilibrados e precisam ter boa digestibilidade, pois você pode acabar tendo o nutriente ali, mas não tendo a capacidade dele ser digerido como deveria. Vamos imaginar uma situação só para que seja possível exemplificar o quão complexo pode ser elaborar a dieta dos seus próprios ratos. Suponhamos que você leu em um blog que a alimentação dos ratos deve ser aquele famigerado mix de sementes. Bom, não é novidade, mas é impossível criar uma dieta constituída apenas por grãos, pois têm notoriamente altas concentrações de fósforo e são pobres em cálcio, além de ricos em gordura. Mesmo assim, você decide continuar com essa alimentação, porque leu que é a melhor opção. Porém, se você oferecer apenas grãos, seus ratos vão desenvolver deficiência de cálcio, e posteriormente irão desenvolver deficiências de outros nutrientes, devido ao desequilíbrio entre cálcio e fósforo. Então você resolve tentar a suplementação com legumes ricos em cálcio, como espinafre e couve. Isso é ótimo, mas agora a vitamina A ficará um pouco mais alta - que, para a sua surpresa, é tóxica em níveis elevados. Altos níveis de vitamina A também diminuem a absorção de vitamina K, resultando numa deficiência da mesma.

Então, vamos supor que você, em vez de utilizar só vegetais como fonte de cálcio, decidiu oferecer cereais enriquecidos. Logo, finalmente o problema com o cálcio foi resolvido, a vitamina A pode não estar tão alta, embora ainda esteja elevada, e a vitamina D está boa agora (se seus ratos não são expostos à luz solar, será preciso adicionar vitamina D a dieta deles). Problema resolvido? Não, não é bem assim. A vitamina K ainda é um problema, pois grãos são muito baixos em vitamina K. Então você oferece frutas e vegetais em vez de aumentar a vitamina K na dieta. E, adivinha: a vitamina A está aumentando novamente, o que irá aumentar ainda mais a necessidade de vitamina K. Complicado, né? E isso é só um dos exemplos de situações que podem acontecer. Por isso a ração deve ser levada em consideração, pelo nível de segurança que ela oferece.


As rações extrusadas disponíveis no mercado, específicas para a espécie Rattus norvegicus, são as mesmas usadas em animais de laboratório, aqueles o quais são testados os fármacos humanos, entre outros experimentos, e por isso precisam manter níveis de saúde dos ratos estáveis e lá no alto para que os resultados não sofram variações. Elas são elaboradas especificamente para que eles possam gastar seus dentes incisivos enquanto comem, como de fato fariam na natureza. 


Labina, a ração extrusada que temos disponível no Brasil.



Rações disponíveis no mercado internacional.


Também temos outras rações elaboradas para pets, com níveis de proteína, gordura e calorias específicos, mas infelizmente não temos a venda delas no Brasil, apenas importando de outros países.

Apesar de termos opções com valores nutricionais generalizados, temos que levar em consideração que por ser uma ração para animais que serão submetidos a procedimentos, e que necessariamente esses procedimentos precisarão de resultados, é de interesse de todos manter os animais saudáveis. Logo, presumimos que há por trás dessas rações, uma série de estudos e experimentos que fizeram especialistas alcançarem e manterem a composição atual.Com a falta de uma boa ração elaborada para a espécie domesticada da ratazana, a disseminação de informações equivocadas e as alternativas relativamente perigosas a longo prazo, muitos tutores acabam ficando duvidosos em relação a alimentação de seus pets, podendo inocentemente comprometer a saúde de seus animais.

A intenção não é convencer alguém de que a ração é melhor do que a alimentação natural, até porque ninguém acredita nisso, mas, apesar de parecer contraditório - é prefirível oferecer a ração que se tem disponível e que embora não seja a melhor do ramo, garantindo níveis seguros, do que inventar uma dieta sem conhecimento com uma receita da internet. É preciso esclarecer que para oferecer este tipo de alimentação é preciso responsabilidade e conhecimento muito aprofundado sobre o assunto, já que se fosse tão simples quanto dizem por aí, não haveria cursos e especializações para profissionais da área de medicina veterinária.

Não podemos esquecer nem por um instante que se trata da saúde de animais, e saúde de animais que vivem pouco. É nossa obrigação cuidar deles, e que sugerir um estilo de alimentação o qual é preciso ter um nível de conhecimento extraordinário em nutrição, pode ter consequências na vida de ratos de outras pessoas. Pensem nisso.

Fontes: Costa, 2013; Kirk, 2006.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Por que ter um rato?


A maioria das pessoas ainda hoje, tem grande aversão à idéia de ter um rato doméstico como animal de estimação, principalmente por associarem roedor, ao olhar a sua cauda, à sujeira, mau cheiro e doenças. Um grande engano. Ratos são animais muito limpos, tanto de corpo quanto de hábitos. Eles limpam-se constantemente, assim como os gatos (cerca de 1/3 do tempo que estão acordados), e quando bem incentivados pelo dono, aprendem a realizar suas necessidades somente em um local da gaiola. Por se tratarem de animais que nunca entraram em contato com nenhum de seus “companheiros" de rua, estão livres de zoonoses, não oferecendo risco algum de transmitir doenças.
Os ratos são bons animais de estimação, principalmente para crianças, porque são grandes o suficiente para serem facilmente manuseados, não são agressivos, raramente mordem. São sociais, inteligentes, afetuosos e facilmente treináveis, aumentando assim a sua conveniência como animais de estimação.



sexta-feira, 19 de junho de 2015

A Domesticação dos Ratos

O rato é um animal de estimação comum, pertencente à ordem Rodentia e a família Muridae. Acredita-se que os ratos foram originados nas áreas agora conhecidas como sul da Rússia e norte da China. Existem mais de 130 espécies do gênero Rattus, embora os dois mais proeminentes são o rato preto (R. rattus), que foi bem conhecido na Europa em 1100 e o rato marrom (R. norvegicus) que se tornou de ocorrência comum na Europa até 1700. Tornaram-se integral da cadeia alimentar mundial e apresentam mutias características e comportamentos que os auxiliam a sobreviver em grandes números. Além disso, aprenderam a comer quase qualquer coisa que possam encontrar.

Na Era Medieval, os ratos eram concorrentes do homem e foram presos, mortos e vendidos por comida, especialmente em tempos de fome na Europa. Além disso, eles foram usados para competições, em 1667, foi descrito que ratos domesticados estavam em exposições em Paris para dançar em cima de fio, ou mostrando outras artes, servindo como fonte de renda para os pobres. No Japão, foi descrito em um livro que os ratos brancos (também conhecido como os ratos de laboratório), "Daikoku Nezumi", foram criados como animais de estimação no Japão tão cedo quanto 1654 e aparentemente vários mutantes foram mantidos, tal como ratos com a cabeça preta, os ratos pretos com mancha branca, ratos brancos de olhos pretos, assim como ratos do tipo anão.


Antigos escritos japoneses sobre ratos.


Na Idade Média, quando as rotas de comércio foram abertas pro Oriente, houve a propagação do rato preto. Mais tarde, seguida pelo rato marrom, chegando na Europa no início do século 18. Então nessa época, criar ratos como isca se tornou um esporte popular. É bem provavel que os ratos marrons entraram em cativeiro como albinos. Sabemos que eles eram usados em rinhas com cães terriers na França e Inglaterra em 1800 e logo em seguida nas Américas. Este esporte durou 70 anos ou mais, até que finalmente foi interrompido pela lei. Neste esporte, 100 a 200 ratos marrons selvagens eram presos e colocados de uma vez só em uma arena de luta. Um cão terrier treinado era colocado junto e um juiz ficava medindo o tempo até que o último rato ficasse morto. Para este esporte, muitos ratos marrons tinham que ser capturados e mantidos prontos pras competições. 

O rato foi apresentado à comunidade científica há mais de um século. A facilidade de reprodução contínua seguida por gestação curta (21 dias) contribuiu para a utilização generalizada desta espécie como mamíferos experimentais. Tal como os seus antepassados selvagens que disputavam a comida, eles competem agora com relação a seu impacto sobre a ciência, desempenhando um papel chave na investigação biomédica, especialmente detalhes sobre as sequências de genomas que estão disponíveis, permitindo comparações com outros genomas de mamíferos, em particular o homem, e anotações sobre as funções dos genes estudados. 


Instituto Wistar


O rato, nos laboratórios, tem sido muito utilizado em experimentos de fisiologia e fez contribuições significativas para várias áreas complexas da biologia dos mamíferos. Por exemplo, o rato é um modelo organismo altamente valioso para a análise de muitas áreas complexas da biomedicina, tais como doenças cardiovasculares, doenças metabólicas (ex: diabetes mellitus), doenças neurológicas e de comportamento (ex: áreas de função motora, audição, visão e aprendizagem, além de pesquisa da epilepsia), doenças auto-imunes (ex: artrite, encefalomielite auto-imune experimental, etc), câncer e doenças renais. A riqueza de informação e a multiplicidade de recombinantes disponíveis de diferentes características específicas tornam o rato de laboratório uma ferramenta indispensável para a investigação biomédica.

Historicamente, os ratos foram tratados como animais de estimação descartáveis, por causa do seu pequeno tamanho, baixo custo e relativa facilidade de aquisição; no entanto, nos últimos anos, tem havido uma mudança nesta tendência.Os ratos são bons animais de estimação para crianças, adultos solteiros e jovens casais, porque eles são fáceis de serem manuseados, podem ser treinados e não são agressivos, sendo que raramente mordem. Os ratos também são inteligentes e afetuosos, aumentando assim a sua desejabilidade como uma espécie de animal de estimação.


Em razão desses roedores serem noturnos e viverem no chão, a visão é seu sentido especial menos desenvolvido e os ratos, pelo menos, são conhecidos por serem cegos para cores. A audição dos roedores é razoavelmente desenvolvida e aparenta ser capazes de sentir vibrações do solo. 

O senso olfativo dos roedores é muito bem desenvolvido. Indivíduos inicialmente investigam alterações em seu ambiente com o seu olfato. Esses roedores frequentemente levantam suas cabeças para o ar e farejam para identificar a fonte dos odores. Se um odor é desconhecido, inflam suas narinas e cheira mais rápido, enquanto movem-se ao redor da gaiola para determinar melhor a fonte do odor. Se reconhecerem uma ameaça, podem tentar se esconder ou escapar. Quando esses roedores são contidos manualmente, constantemente cheiram o ambiente e quem os segura ao se sentirem incomodados lutarão para fugir. Por essa razão, é importante que os veterinários e assistentes lembrem-se de lavar as mãos, trocar de luvas e vestir jalecos ou aventais limpos quando trabalharem com roedores. Isso é especialmente importante para um hospital veterinário, em que a equipe pode manejar espécies predadoras como cães e gatos antes de manejar o roedor. 


Os ratos produzem uma vocalização similar a dos camundongos e frequentemente produzem ruídos semelhantes a cacarejos na parte dorsal de suas gargantas, com ou sem outros sons audíveis e ocasionalmente também enquanto rangem os dentes. Se os animais estiverem famintos ou procurando ativamente por comida, esses sons podem continuar intermitentemente até que comecem a comer. Com frequência, ouvem-se ratas fêmeas fazendo ruídos semelhantes a cacarejos suaves enquanto carregam seus filhotes ou se limpam quietamente em suas gaiolas. Se o rato fica agitado ou assustado, sua vocalização se torna mais alta e soa mais como grito ou outros sons agudos. Geralmente, se um rato com dor é deixado sozinho, permanece quieto. Se for manejado ou levantado pela base da cauda, entretanto, as vocalizações se tornam um tanto altas e o animal também irá lutar para escapar e poderá morder.


Fontes: O'Malley; Suckow; Bays et al.